#025 · O plano de recuperação de Garrido Pereira para o Boavista, traduzido aos Boavisteiros
O clube fechou porque faltaram 55 mil euros num mês. O plano de recuperação promete pagar 155 mil por mês, saídos de um estádio interdito e de modalidades encerradas. Li as 31 páginas.
A Direcção do Boavista Futebol Clube, presidida por Rui Garrido Pereira, entregou em tribunal, no dia 14 de Julho, um plano de insolvência com finalidade recuperatória. Sabemos disso porque foi a própria Direcção a anunciá-lo publicamente, um dia depois, quando a Administradora de Insolvência mandou encerrar toda a actividade do Clube: "estamos a trabalhar para restabelecer a actividade desportiva o mais rapidamente possível", disse o Presidente ao Jornal de Notícias, com a surpresa de quem não esperava a decisão.
Uma nota antes de começar, sobre a natureza do documento. Não é um rascunho interno nem um papel privado: é uma peça do processo de insolvência 7629/23.7T8VNG, que corre no Juízo de Comércio de Vila Nova de Gaia. Está junta aos autos, será notificada aos credores e vai ser discutida e votada em assembleia de credores. Por outras palavras: é um documento destinado a tornar-se conhecido, e este blog teve acesso ao seu conteúdo. E é um documento que os sócios devem poder ler sem intermediários.
O documento está disponível para consulta, na íntegra e com o anexo financeiro, no arquivo do observatório Unidos Pelo Boavista, onde foi plubicada também uma leitura factual do plano, ponto por ponto, para quem quiser o essencial sem juridiquês. Vale a pena lê-lo: cada sócio tem o direito de saber o que foi pedido em seu nome.
São 31 páginas de juridiquês e um anexo financeiro de três páginas, das quais só uma tem tabelas de números. Li tudo, mais do que uma vez, com o documento aberto ao lado deste texto: cada afirmação que se segue tem página e imagem. Não vais precisar de acreditar em mim; vais poder verificar.
Aviso desde já: eu quero que exista um plano. Defendo desde Fevereiro que a ausência de um plano de insolvência era o que nos estava a matar, e o tribunal confirmou-o a 18 de Maio, quando recusou travar a liquidação exactamente por não existir nenhum. Portanto não leias aqui um adversário do conceito. Lê um sócio que abriu o documento com esperança e o fechou com as orelhas a arder.
A versão rápida (se só tens trinta segundos)
- Estado: recebe tudo (quanto? o plano não divulga; em 2013 eram 11 milhões), em 12,5 anos. Fornecedores: recebem um quarto, em 37 anos e meio (a quem devam 100 mil euros: 25 mil, a 166 € por trimestre).
- Os credores com hipotecas (a posição historicamente da Sacyr: 38,3 milhões já em 2013, 59% da dívida de então) recebem o mesmo quarto mas três vezes mais depressa, porque, diz o plano, "são também investidores".
- Receitas previstas para 2026: 413 mil € de um estádio interdito, 560 mil € de modalidades encerradas, 405 mil € de um licenciamento sem contrato identificado, 189 mil € de quotas que a própria Direcção congelou.
- Obras para a prometida "arena multiusos": zero euros orçamentados em dez anos.
- Contas feitas (e verificáveis): o plano paga cerca de 36 milhões em toda a sua vida, contra uma dívida noticiada acima de 150 milhões.
- O ritmo prometido em cruzeiro: ~155 mil € por mês para os credores, prometidos pelo clube que fechou porque ninguém depositou 55 mil num mês.
- O plano pede às Finanças a dispensa da substituição da Direcção, por ela ser "vital para a credibilidade".
- Aos sócios promete-se uma AG para "apresentar e explicar". Votar? Nada.
Agora devagar, ponto por ponto. Isto é longo porque tem de ser: é o documento mais importante da história recente do clube e ninguém to vai explicar por ti.
1. Primeiro, o básico: o que é um plano de insolvência?
É uma proposta do devedor aos credores. Diz, no essencial: "em vez de venderem tudo o que tenho para receberem migalhas, deixem-me continuar a funcionar e pago-vos uma parte, ao longo do tempo". Os credores votam. Se aprovarem, o juiz verifica se o plano é legal e justo, e homologa. A partir daí, está em vigor e tem de ser cumprido.
Guarda dois pormenores. Primeiro: quem vota o plano são os credores, não os sócios. Segundo: o juiz pode chumbar um plano mesmo aprovado, se ele tratar credores de forma desigual sem justificação. Fixa isto, porque volta mais à frente.
2. O que o plano promete pagar (a quem, quanto, quando)


Antes da tabela, a pergunta que o documento nunca responde: quanto deve o clube, e a quem? O total é público: o passivo reconhecido no processo ultrapassa os 150 milhões de euros. A distribuição por credor está no Anexo II. Em 2013, no plano anterior, a Somague, hoje Sacyr, reclamava 38,3 milhões, mais de metade de toda a dívida de então. E a hipoteca da Sacyr é sobre o Bessa, o mesmo estádio que em Junho foi a leilão por um mínimo de 27 milhões e não recebeu uma única proposta.
Ao Estado (Finanças e Segurança Social): tudo, a cem por cento, em 150 prestações mensais. Doze anos e meio, o máximo que a lei permite. Para teres a escala do esforço: só para pagar os 11 milhões que o Estado reclamava em 2013, seriam prestações de 73 mil euros por mês, durante os 150 meses. E o plano vem ainda com duas apostas escondidas. A primeira: o plano assume que os juros vencidos ficam reduzidos a 20%, como se fosse automático; não é. A lei (um decreto de 1999) dá 50% de redução a quem apresente garantia real ou bancária, e o resto é uma decisão discricionária do Governo. A segunda: como garantia à Segurança Social oferece-se um "penhor mercantil sobre bens móveis" do clube. Os bens móveis. De um clube com o património apreendido e parcialmente leiloado. E às Finanças pede-se mesmo a dispensa de garantia, com este argumento circular: recusá-la prejudicaria... o próprio Estado.
Aos trabalhadores: tudo, mas em 48 prestações. Os funcionários que ficaram sem emprego no encerramento esperam quatro anos pelos salários, sem juros.
Aos fornecedores: um quarto. Vinte e cinco por cento do que lhes é devido. E agora segura-te: pago em 150 prestações TRIMESTRAIS, com início dois anos depois da homologação. Faz as contas comigo: cento e cinquenta trimestres são trinta e sete anos e meio. Em dinheiro: a uma empresa a quem o clube deva 100 mil euros, o plano promete 25 mil, em prestações de 166 euros por trimestre. O electricista que reparou um quadro no Bessa e nunca recebeu, se tiver hoje cinquenta anos, recebe a última prestação com noventa. É o calendário de pagamento que está no documento. Nunca, em nenhum plano de nenhum clube português, alguém pediu prazos destes; o máximo que um tribunal homologou foram 25 anos, no Beira-Mar, em 2017.

Aos credores com hipotecas: também um quarto, mas em prestações mensais, em doze anos e meio, um terço do tempo dos fornecedores. No mesmo exemplo dos 100 mil euros: os mesmos 25 mil, nas mesmas prestações de 166 euros, só que por mês em vez de por trimestre. A mesma prestação no papel, mas a chegar três vezes mais depressa. E porquê este tratamento de favor a quem, por ter garantia real, já estava mais protegido do que toda a gente? O plano responde com todas as letras: porque estes credores "são também investidores, permitindo, assim, a viabilidade do clube". Lembras-te de, em Maio, a Direcção ter anunciado que "parceiros estratégicos" iam comprar o crédito da Sacyr, a dona da hipoteca do Bessa? Pois. Junta as peças. Quem comprar essa dívida com desconto recebe melhor e mais depressa do que toda a gente e, como o plano prevê mais à frente, fica com um papel na exploração do estádio. Compra-se o bilhete na bilheteira dos credores e sai-se de lá dono da operação.
E os sócios votam isto quando? Não votam. O plano promete "apresentar e explicar" o documento numa Assembleia Geral. E votar? Só se alguma medida concreta o exigir por lei ou pelos estatutos; qual, o plano não diz: não identifica uma única decisão que os sócios venham a votar. Os sócios, donos do clube, assistem de lado.

3. De onde vem o dinheiro? (senta-te)
Um plano paga-se com receitas. O anexo projecta 1,75 milhões de receitas totais já este ano, a triplicarem para 5,6 milhões em 2035. Vamos ver do que são feitas as deste ano, o ano em que estamos:

413.800 € de "utilização do estádio". O estádio está interdito pela Protecção Civil desde Agosto de 2025 e a actividade foi encerrada pela administradora a 15 de Julho. Mas garantem que vai gerar 413.000 euros até ao fim do ano.
560.000 € de modalidades. As modalidades foram encerradas. Recebeste e email, como eu. Está a ser a debandada de atletas de todas as modalidades bem como treinadores, directores e outro staff, de todas as modalidades. Mas vão milagrosamente deixar de dar prejuízo para gerarem receita de mais de meio milhão de euros até ao fim do ano.
405.000 € de "licenciamento" da marca. Quase um quarto de toda a receita prevista para o primeiro ano, e o documento não identifica um único contrato. A entidade óbvia para pagar pela marca, a SAD, tem o protocolo de 2021 incumprido, como o próprio plano admite páginas antes.
189.000 € de quotas. Com os 974 sócios efectivos apurados na validação de assinaturas em Abril, isto daria 194 euros por sócio, por ano; o plano assume que voltam todos, e logo no ano em que as renovações estão congeladas. Congeladas por quem? Pela própria Direcção que assina o plano. E para 2028 projecta-se mais do dobro (411 mil), sem explicar de onde vêm os milhares de novos pagantes.
181.200 € de alugueres de espaços, que quadruplicam para 724 mil já em 2027. Espaços que têm de estar entregues "livres de pessoas e bens" até 31 de Julho.
E depois há a margem. Em velocidade cruzeiro, o plano projecta margens EBITDA de 58 a 59%. Traduzo: de cada 100 euros que entram, 58 sobram depois de pagar toda a operação. Para referência, é uma margem de empresa de software onde não há bens físicos; clubes desportivos e operadores de estádios vivem com uma fracção disso. E há um erro que qualquer contabilista apanha ao primeiro olhar: a linha "Resultado Líquido" do anexo é igual ao EBITDA nos dez anos. Traduzo outra vez: o plano calcula o lucro esquecendo-se que estádios se desgastam (depreciações) e que dívidas têm juros. É como dizer que sobra dinheiro ao fim do mês esquecendo que ainda há a prestação da casa para pagar.

4. As obras invisíveis: o capex que não existe

O coração da receita futura do plano é transformar o Bessa numa "arena multiusos": concertos, eventos empresariais, museu, visitas guiadas, hospitality. O documento cita dois exemplos: o Santiago Bernabéu e a Veltins-Arena do Schalke 04.
Vamos levar os exemplos a sério, porque eles são a melhor prova contra o próprio plano. O Real Madrid recebeu cerca de 360 milhões de euros de um fundo (a Sixth Street) precisamente para desenvolver os novos negócios do estádio. A Veltins-Arena custou 191 milhões a construir e faz mais de 800 eventos por ano com cobertura retráctil e relvado amovível. Ou seja: estes modelos funcionam porque alguém pôs lá muito dinheiro das obras primeiro.
Agora procura no anexo financeiro do nosso plano a verba para as obras. Procura a rubrica "investimento". Procura o custo de levantar a interdição da Protecção Civil, que é o passo zero de qualquer utilização do estádio. Não existe. Zero euros. Em dez anos de projeções. A interdição da ANEPC não é mencionada uma única vez pelo nome nas 31 páginas. E no entanto as receitas de estádio dão um salto de mais 750 mil euros por ano em 2029, como se a arena aparecesse por geração espontânea.

O plano diz que a entrada de investimento é um "pressuposto, cenário, negociação em curso ou condição precedente". Em português: não está garantida, não tem montante, não tem prazo, não tem nome. Mas as receitas que dela dependem estão lá todas, contadas ao euro. É um orçamento familiar que conta com o ordenado do emprego de onde já fomos despedidos e com as rendas de uma casa que ainda não construímos, nem orçamentámos, nem sabemos quem paga.
5. As contas totais (faz comigo, é aritmética de papel e lápis)
Quanto paga este plano aos credores, ao todo? O documento nunca diz. Mas o anexo financeiro tem a linha "Serviço de Dívida" ano a ano, e somar está ao alcance de qualquer um:
De 2026 a 2035, o plano prevê pagar 16,1 milhões. As prestações mensais (Estado, Segurança Social, hipotecários) continuam até ~2039: mais uns 7,4 milhões. E a cauda dos fornecedores, os tais 25% em prestações trimestrais, arrasta-se até perto de 2064: cerca de 12,5 milhões. Total da vida inteira do plano: na ordem dos 36 milhões.
A dívida do Boavista, segundo tudo o que foi noticiado no processo, ultrapassa os 150 milhões.
Trinta e seis em cento e cinquenta. E uma parte substancial paga por gerações de dirigentes, credores e sócios que ainda não nasceram.
Outra forma de sentir a grandeza: o plano promete entregar aos credores cerca de 1,86 milhões por ano. São 155 mil euros por mês, todos os meses, durante mais de uma década. Agora recorda porque estamos aqui: o clube fechou a 15 de Julho porque Garrido não depositou 55 mil euros num mês. Este plano promete quase o triplo disso, mensalmente, saído de um estádio hoje interdito e de modalidades hoje encerradas. Quem não conseguiu 55 promete 155, todos os meses.
Nota de honestidade: estas contas são minhas, feitas a partir do anexo financeiro do plano, e qualquer leitor as pode refazer. O documento que permitiria fechá-las ao cêntimo é o Anexo II, o "Mapa de Credores e Proposta de Tratamento", que a lista de anexos promete. Se alguém da Direcção quiser corrigir-me com números, há uma forma simples: divulguem o Anexo II.
6. Os pormenores que dizem tudo
O cenário único confessado. O próprio texto escreve que a análise financeira "deverá contemplar, pelo menos, três cenários" (prudente, base e optimista) e, parágrafos depois, assume que "o Plano defende apenas o cenário base". Exigem-se três a si próprios e entrega-se um. Está escrito, não sou eu que o digo.

A comparação que a lei exige e que não existe. A lei da insolvência (artigo 195.º do CIRE) manda que um plano compare, com números, o que os credores recebem com o plano e o que receberiam na liquidação. O documento promete essa comparação "de forma expressa, quantificada". Ela não aparece em página nenhuma. E o mais irónico: o melhor argumento a favor da recuperação existia e era público, o leilão de Junho, em que o Bessa não recebeu uma única proposta por 27 milhões. Prova feita de que em liquidação os credores recebem quase nada. O plano nem isso usa.
O pedido para ficar em funções. Para poder pagar às Finanças em prestações as dívidas de IVA e retenções, a lei prevê por regra uma condição: a substituição dos responsáveis pelo incumprimento. O plano pede a dispensa dessa substituição, alegando que a manutenção da Direcção de Garrido Pereira é "vital para assegurar a credibilidade da recuperação". A credibilidade. Junto de fornecedores a quem propõe pagar um quarto em trinta e sete anos e meio.

A exploração do estádio, entregue não se sabe a quem. O plano prevê "sociedades-veículo" para explorar comercialmente os espaços e direitos do clube, "mediante pagamento de uma contrapartida mensal ou anual". Quem controla essas sociedades? Que percentagem fica para o clube? Por quantos anos? Com que fiscalização? O documento não diz. Diz apenas que a informação sensível será partilhada com investidores "de forma controlada, faseada e confidencial", com acordos de confidencialidade.
E a memória selectiva. Sobre a época passada, o plano escreve que "apenas se tornou necessário proceder a ajustamentos estratégicos em duas modalidades" e que a actividade foi "globalmente preservada". As duas modalidades são o andebol, extinto por inteiro, onze equipas, dos seniores aos sub-12, e o futsal de formação. E a época "globalmente preservada" terminou com as quatro equipas seniores do clube despromovidas. Contável como verdade, é o eufemismo mais ridículo que li este ano.
7. Já vimos este filme
Em 2013, os credores perdoaram ao Boavista 33 milhões, metade da dívida de então, com o Estado a receber em 150 prestações, exactamente como agora. O plano foi aprovado por mais de noventa e três por cento dos credores. Falhou, foi incumprido. Em 2018 houve outro, do lado da SAD, com carências e reduções. Falhou. Este é o terceiro pedido de confiança do universo Boavista em treze anos, e o documento não gasta uma linha a explicar porque falharam os dois primeiros, nem o que muda desta vez, além dos credores terem menos e esperarem mais.
E há o contexto de 2026 que a Direcção conhece tão bem como eu: só este ano, dois planos de clubes portugueses aprovados pelos credores foram chumbados pelos juízes na homologação. A Académica em Maio, por tratar credores de forma desigual sem justificação. O Estrela da Amadora em Junho. Lembras-te do pormenor que te pedi para fixar no início? Tratamento desigual sem justificação. Relê o ponto 2, a parte dos fornecedores a 37,5 anos e dos hipotecários "que são também investidores" a 12,5, e tira as tuas conclusões.
8. E as modalidades, entretanto?
O detalhe mais cruel de todos. As modalidades valem, nas contas do próprio plano, quase um terço das receitas projectadas. O plano PRECISA delas vivas. E no entanto: as modalidades foram encerradas a 15 de Julho, as instalações têm de ser entregues até 31 de Julho, os treinadores estão a dispersar, os atletas a inscrever-se noutros clubes. Sobre quem mantém tudo isto vivo entre hoje e uma eventual homologação, daqui a meses, o documento tem exactamente zero palavras. O plano conta com algo que está a ser erodido diariamente há anos
9. E o que aconteceu desde então
Escrevi as linhas acima com o documento à frente, dias depois da entrega. Entretanto passaram duas semanas, e o que aconteceu diz mais sobre este plano do que qualquer análise minha.
A 15 de Julho, um dia depois de o plano entrar em tribunal, a Administradora de Insolvência encerrou toda a actividade do Clube. Nos dias seguintes, foram sócios, adeptos e pais de atletas, através de um movimento criado por dois sócios, que juntaram do próprio bolso a verba exigida para retomar a actividade: cerca de 80 mil euros, depositados na conta da massa insolvente, mais quase mil e quinhentos pedidos de uma camisola de campanha. À data em que escrevo, o Bessa continua fechado, à espera de decisão do Tribunal e da validação da Administradora, e as chaves do estádio têm de ser entregues até 31 de Julho. A 29 de Julho, o Clube anunciou ainda as comemorações do 123.º aniversário para 1 de Agosto: entrega da primeira camisola da campanha de recolha de fundos, hastear da bandeira na Praça da Pantera e missa de aniversário. Cento e vinte e três anos, celebrados com a actividade desportiva encerrada.
O plano promete aos credores 155 mil euros por mês, todos os meses, durante mais de uma década, a partir de um estádio interdito e de modalidades encerradas. E o que reabriu a porta, ou pode reabrir, foram 80 mil euros que os sócios tiraram do bolso em poucos dias, sem plano, sem arena, sem investidores. Quem sustentou o Clube nas duas semanas mais difíceis da sua história não foi nenhuma projecção a dez anos. Foram Boavisteiros e simpatizantes, com transferências de 50 euros.
É por isso que este plano tem de ser lido com atenção, e não com fé. Quem paga a conta já mostrou quem é.
10. O que podes fazer com isto
Não votas o plano; quem vota são os credores. Mas és dono do clube, e há perguntas que só deixam de ser incómodas quando forem respondidas em público. Quando houver a tal Assembleia Geral de "apresentação e explicação", leva estas cinco:
Quem são os investidores que ficam com os créditos hipotecários e com as sociedades que vão explorar o Bessa, e em que condições exactas?
Onde está o orçamento das obras da arena que sustenta as receitas do plano, e quem paga o levantamento da interdição?
Onde está o Anexo II, o mapa de credores que permite verificar as contas?
Porque é que quem nos trouxe até aqui pede, no próprio plano, para ficar?
E as modalidades? Quem as mantém vivas até à homologação com que o plano conta?
Confesso que gostava de estar a escrever outro texto. O esqueleto deste plano tem as ideias certas, e digo-o sem ironia: não vender o Bessa, diversificar receitas, pagar aos credores com actividade em vez de os pagar com escombros. É o que qualquer boavisteiro sensato defende há anos. Mas ideias certas com números de fantasia, prazos sem precedente e os mesmos protagonistas não são um plano de recuperação. São uma carta ao Pai Natal com carimbo de tribunal, e os credores, o juiz e os sócios já receberam demasiadas.
A Assembleia Geral é, nos termos do artigo 58.º dos Estatutos, a autoridade suprema do clube. Um plano que decide as próximas quatro décadas do Boavista devia começar por respeitá-la.
Preto no Branco. P'la Bandeira.