Ideal Axadrezado #022 - 270 Assinaturas. 140 Reconhecidas. 7 Perguntas. Zero Respostas.
Duzentos e setenta sócios assinaram. A Secretaria reconheceu 140. O quinto não foi atingido.
Antes de continuar, é preciso dizer uma coisa com clareza: este artigo não é uma contestação do resultado. Se os números estiverem correctos, o quinto não foi atingido e a AG não é convocada. É assim que os Estatutos funcionam e temos de respeitar os Estatutos.
O que este artigo questiona é outra coisa: a recusa em explicar como se chegou a esse resultado. Porque 270 sócios exerceram um direito. E quando se exerce um direito, tem-se também o direito de saber sobre que base foi avaliado. O que se segue são factos, números e perguntas que ficaram sem resposta.
O que foi entregue
A 23 de abril de 2026, dois sócios do Boavista Futebol Clube entregaram na Secretaria do clube um dossier com quase 300 páginas. Dentro: um requerimento formal de convocação de Assembleia Geral Extraordinária ao abrigo do artigo 67.º, n.º 2 dos Estatutos, uma lista com 270 signatários e 270 declarações individuais assinadas digitalmente, cada uma com verificação de email, rúbrica digital e registo temporal.
O requerimento pedia a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária com uma agenda específica de três pontos de ordem: destituição da direção, nomeação de uma comissão administrativa transitória, e mandato para essa comissão negociar com a administradora de insolvência e os credores.
Foi dado um prazo de cinco dias úteis à Secretaria para validar as assinaturas.
A reunião de 30 de abril
Sete dias depois, na Secretaria do clube, cinco pessoas sentaram-se à mesa (dia 30 de abril e não dia 27 de abril como a Mesa menciona no comunicado aos sócios).
Pela Secretaria, Diogo Barbosa. Pela Mesa da Assembleia Geral, Raul Ralha e Manuel Queirós. Pelos signatários, dois sócios: João Martins e Rui Filipe.
Logo no início, o anúncio: das 270 assinaturas, apenas 140 foram consideradas válidas. Cento e trinta foram desconsideradas. Não foram apresentados os motivos individuais de cada exclusão. Não foi entregue nada aos mandatários. Apenas o número.
De imediato se fez a pergunta seguinte:
"Quantos sócios efectivos temos, para sabermos se temos um quinto?"
A resposta obtida:
Não sabemos. É muito difícil contabilizar o que é um sócio efectivo no Boavista. Não lhe conseguimos dizer esse número agora."
Para validar 270 assinaturas, a Secretaria em teoria consultou a base de dados sócio a sócio. Para cada nome, verificou se era efectivo, se era maior de idade, se tinha quotas em dia, se estava na plenitude dos direitos. É a mesma base de dados que responde à pergunta "quantos sócios efectivos temos no total." A validação individual ficou pronta em sete dias. O número total de sócios elegíveis? "Não sabemos."
Vinte e quatro horas depois, a Secretaria comunicou o número por email: 894 sócios efectivos. Quinto exigido: 179. A petição, com 140, ficava abaixo.
Duas perguntas sobre os números
Não se vai insinuar o que não sabemos. Mas faz-se duas perguntas legítimas e demostrar porque precisam de resposta.
Primeira pergunta: como é que o universo de sócios efectivos subiu de 767 para 894 em quatro meses?
Em janeiro de 2026, em resposta a um requerimento formal, o clube confirmou por escrito 767 sócios efectivos com plenitude de direitos. Quinto exigido nessa data: 154.
Em abril de 2026, a Secretaria comunica 894. Quinto exigido: 179. Mais 127 sócios em quatro meses.
Mas atenção: estes 127 são o aumento líquido. Ou seja, é o resultado final depois de contar quem entrou e quem saiu. Num clube em insolvência, é natural que alguns sócios deixem de pagar quotas e percam a plenitude de direitos. Se, por exemplo, 30 sócios deixaram de pagar nesse período, então não foram 127 a entrar, foram 157, para o total subir 127. O número real de novas admissões ou regularizações pode ser significativamente maior do que 127.
Pode haver uma explicação perfeitamente natural. A petição teve visibilidade. Sócios que tinham quotas em atraso podem ter decidido regularizar. A mobilização pode ter provocado exactamente o efeito contrário ao pretendido: quanto mais sócios se regularizaram, mais alto ficou o quinto. Se foi isso que aconteceu, é até uma boa notícia para o clube. Mais sócios a pagar quotas é sempre positivo.
Mas há uma forma simples de o confirmar: a Secretaria divulga a lista dos sócios admitidos ou regularizados entre janeiro e abril, com data de admissão ou regularização. Se foram espontâneas, não há razão para não partilhar essa informação.
Pedimos esta lista. Não obtivemos resposta.
Segunda pergunta: porque é que 96% dos signatários dizem ter as quotas em dia e a Secretaria reconhece 52%?
Cada signatário, no momento da assinatura, indicou a última quota paga. Pelo artigo 31.º dos Estatutos, a condição para estar na plenitude de direitos é ser sócio maior de idade e ter pago a quota do mês anterior. A 23 de abril, o mês anterior é março.
Auto-declaração não é prova. Sabemos. Alguém pode enganar-se, pode estar em erro sobre o estado das suas quotas, pode até mentir. Mas há um subconjunto destes números que é mais difícil de descartar.
Dos 270 signatários, 187 (69%) declararam ter a quota de junho de 2026 paga. Não março. Não abril. Junho. Quem pagou junho, abrange também março, abril e maio, inerentemente. Para estes 187, a condição do artigo 31.º (ter pago a quota do mês anterior) está satisfeita com folga, independentemente do critério temporal que a Secretaria tenha aplicado.
A Secretaria validou 140 no total. Logo, no mínimo 47 destes 187 "declarantes de junho" foram excluídos.
E aqui a aritmética aperta: para estes 47 casos, a justificação não pode ser quotas em atraso. Se pagaram até junho, estão cobertos. As únicas explicações possíveis são três: ou mentiram na declaração (improvável em massa, possível em casos isolados); ou foram excluídos por motivo que não tem a ver com quotas (categoria não elegível, menoridade, penalidade pendente, duplicação); ou a Secretaria aplicou um critério que vai além do exigido pelo artigo 31.º.
Qualquer uma das três é verificável. Basta a Secretaria divulgar, para cada um dos 130 excluídos, o motivo concreto da exclusão. É exactamente o que o pedido formal número quatro solicitava.
Não obtivemos resposta.
Em particular, uma questão continua por esclarecer: que mês de quota foi exigido pela Secretaria para validar uma assinatura? Se foi março, como o artigo 31.º prevê, os 47 casos acima tornam-se ainda mais difíceis de explicar. Se foi abril, a Secretaria aplicou um critério mais restritivo do que os Estatutos permitem, porque o artigo 36.º dá prazo até 1 de maio para pagar a quota de abril.
O que aconteceu com a lista de validação
A meio da reunião de 30 de abril, o representante da Secretaria mostrou um documento de cerca de 20 páginas com anotações a lápis sobre o estado de cada signatário: visto ou cruz, com motivo abreviado para os excluídos.
Um dos sócios teve o documento nas mãos durante alguns minutos e folheou-o. Não lhe foi permitido tirar cópia, fotografia, ou fazer anotações. Não foi possível cruzar o conteúdo com a tabela preparada pelos mandatários. O outro sócio não chegou a ter essaa lista nas mãos sequer.
Durante o folheamento, foi identificado um signatário com número na faixa dos 5000, marcado como excluído com a justificação "menor." Questionou-se se havia certeza. A resposta foi um encolher de ombros e um "sim" verbal. Minutos depois, foi mostrado no computador da Secretaria, com o ecrã parcialmente coberto, informação de um sócio diferente, na faixa dos 7500, alegadamente menor. A pergunta original era sobre um sócio. A resposta foi sobre outro. Não foi possível confirmar nada.
No email de 7 de maio, a Secretaria descreve esta interação de forma diferente: diz que a lista "foi facultada a um dos representantes da petição", que "o representante analisou o documento", que "a única dúvida levantada foi esclarecida no momento", e que "a lista foi assumida como correta no final da análise."
Temos uma versão diferente do que aconteceu. Não houve análise. Houve folheamento. Não houve assunção de correcção. Houve impossibilidade de verificação. A dúvida levantada não foi esclarecida: foi respondida com dados de um sócio diferente do que tinha sido questionado. E a ata da reunião regista que os mandatários pediram o número total de sócios, o que demonstra que não consideraram o processo encerrado.
Sete perguntas sem resposta
A 4 de maio (depois da reunião), enviou-se por email à Secretaria, com cópia à Mesa da Assembleia Geral, um pedido formal com sete perguntas. São perguntas que qualquer sócio tem o direito de fazer quando um direito estatutário está em causa. Com jurisprudência de outros casos onde isto foi possivel, acomodando o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados.
Um: que mês de quota foi exigido para validar uma assinatura?
Dois: se foi exigida abril, quem ficou de fora apenas por esse motivo?
Três: lista dos 140 validados, com nome e número de sócio.
Quatro: lista dos 130 excluídos, com o motivo concreto de cada exclusão.
Cinco: lista dos 894 sócios efectivos a 23 de abril. A base de cálculo do quinto.
Seis: lista dos sócios admitidos ou regularizados entre janeiro e abril de 2026, com data.
Sete: cópia do registo formal da validação, com critérios e metodologia.
O pedido solicitava resposta em cinco dias úteis. O mesmo prazo que a Secretaria levou para fazer a validação.
Nenhuma das sete perguntas teve resposta até hoje e temos dúvidas que vá ter.
O comunicado de 7 de maio
A 7 de maio, a Mesa da Assembleia Geral enviou email a todos os sócios informando que o quinto não foi atingido e que o processo está concluído. Sem nenhum número.
Sobre este comunicado, três notas factuais.
A cronologia apresentada indica que a reunião de validação ocorreu "a 27 de abril." A ata oficial, assinada pelos cinco presentes, diz "Data: 30 de abril de 2026." Pode ser gralha. Mas num documento oficial enviado a todos os sócios, a exactidão das datas não é detalhe. É o mínimo. Especialmente quando estamos a ter dúvidas do processo de validação.
A cronologia omite a existência do pedido formal de 4 de maio. As sete perguntas feitas não são mencionadas. O comunicado diz "para que todos tenham acesso aos factos" mas exclui o facto de que existe um pedido formal, com perguntas concretas, sem resposta.
O comunicado agradece aos mandatários pelo "rigor e correção com que conduziram todo este processo." O reconhecimento é público e é apreciado. Mas coexiste com a recusa em responder às perguntas que esses mesmos mandatários formularam com o mesmo rigor e correção.
No mesmo dia, a Secretaria enviou um outro email a um dos sócios que pediu uma reunião presencial, a encerrar o processo. O email afirma que "não há necessidade nem fundamento para nova reunião de verificação" e que "os Serviços Administrativos dão este processo como concluído da sua parte."
Quem são os 270
Há quem nas redes sociais tente desacreditar a petição como "petição de crianças" ou "petição de sócios falsos." Os dados não sustentam essa leitura.
A mediana do número de sócio dos 270 signatários é 2.586. Mais de metade (57% - 154 sócios) têm número inferior a 3.000, o que indica sócios com décadas de vinculação ao clube.
Mesmo no cenário extremo de todos os signatários com número acima de 8.000 serem inválidos (o que ninguém demonstrou), restariam 209 signatários com vinculação longa. Mais do que o quinto de 179.
A composição da lista fala por si.
O que não estamos a fazer
Não estamos a acusar ninguém de fraude. Não estamos a dizer que os 894 são falsos. Não estamos a dizer que a Secretaria agiu de má-fé. Não estamos a dizer que houve manipulação da base de dados.
Estamos a dizer que há uma discrepância entre 767 e 894 que merece explicação. Que há uma discrepância entre 96% e 52% que merece explicação. Que há sete perguntas razoáveis que mereciam resposta. E que o processo foi encerrado unilateralmente via comunicado da MAG para todos os sócios sem que nenhuma delas fosse respondida.
Se os números estiverem correctos, mostrem-nos. Se os critérios foram os dos Estatutos, digam-nos. Se as regularizações foram espontâneas, confirmem-no. É só isso que pedimos. Transparência. A mesma transparência que a direção prometeu umas setenta vezes no programa eleitoral.
O que estamos a fazer
Estamos a contactar os 270 signatários por email, um a um, para lhes pedir que confirmem se, a 23 de abril, estavam na plenitude dos seus direitos: sócio efectivo, maior de idade, com pelo menos a quota de março paga.
Quando tivermos resultados, vamos cruzá-los com a validação da Secretaria. Se um número significativo de signatários excluídos se confirmar em plenitude, a discrepância terá de ser explicada. Não por nós. Pela Secretaria.
O que está em jogo
Enquanto isto acontece, o Estádio do Bessa está em leilão até 20 de maio. A direção continua afastada da coadjuvação da gestão desde 18 de fevereiro, sem nada dizer aos sócios. Não se demite. Não convoca assembleias. Não responde a perguntas.
Um grande grupo de sócios fizeram a sua parte: 270 assinaturas, um requerimento formal, e um pedido escrito com sete perguntas.
Mesmo que o número final seja 140, mesmo que o quinto formal não tenha sido atingido, 140 sócios efectivos que pedem uma assembleia são 140 sócios a mais do que esta direção jamais consultou desde que foi afastada.
140 sócios a pedir para serem ouvidos não são um número para ignorar.
São um sinal que uma direção responsável acolheria em vez de silenciar. E mesmo que, por uma margem técnica, não chegue, que se olhe para os 140 e se perceba o que ali está. Não é um número que se arquiva. É uma vontade que não desaparece com uma vírgula num regulamento.
Agora falta a outra parte fazer a dela. Responder.
Quando tivermos respostas, voltamos. A situação está a ser monitorizada no unidospeloboavista.pt para que todos os sócios saibam o que foi pedido em seu nome.
Preto no Branco. P'la Bandeira.
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