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Ideal Axadrezado #021 - Entregue. Agora que se cumpram os Estatutos.

Ideal Axadrezado #021 - Entregue. Agora que se cumpram os Estatutos.
Requerimento a pedir Assembleia Geral Extraordinária e dossier com 270 assinaturas entregue na Secretaria do clube.

Há dois factos novos. Um é bom. O outro é devastador. E juntos dizem tudo sobre o momento em que o Boavista se encontra.

O primeiro: hoje, 23 de abril, foi entregue na secretaria do Boavista Futebol Clube um requerimento formal para a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária. Duzentas e setenta assinaturas de sócios efectivos, recolhidas em poucas semanas, verificadas por email, com validade legal ao abrigo do Regulamento eIDAS. O requerimento invoca o artigo 67.º, n.º 2 dos Estatutos: um quinto dos sócios com as quotas em dia pode exigir uma AG. A Mesa da Assembleia Geral é obrigada a convocá-la. É um direito.

O segundo: o Estádio do Bessa e o complexo desportivo vão a leilão. Valor base: 38 milhões de euros. O leilão começa a 27 de abril. Daqui a quatro dias.

Quatro dias.


Vamos falar do requerimento.

A ordem de trabalhos tem três pontos. Os mesmos que a petição sempre defendeu, agora vertidos num requerimento formal.

Ponto um: destituição da direção. Com fundamento na cessação das funções de coadjuvação pela administradora de insolvência a 18 de fevereiro, na gestão que conduziu à insolvência, e na perda de confiança dos credores e acima de tudo dos Sócios.

Ponto dois: nomeação de uma comissão administrativa transitória, com composição, competências e prazo de mandato definidos pelos sócios na assembleia.

Ponto três: mandato para essa comissão representar o clube perante a administradora, os credores e o tribunal, e convocar eleições num prazo fixo.


O que foi entregue, passo a passo

Publicamos aqui o requerimento completo, sem cortes, para que todos os sócios saibam exactamente o que foi pedido em seu nome. Transparência não é selectiva.

O dossier entregue na secretaria é composto por três partes:

O requerimento em si, dirigido ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral. É o documento formal que invoca o artigo 67.º, n.º 2 dos Estatutos e lista os três pontos da ordem de trabalhos. É este documento que obriga a Mesa a agir.

O Anexo 1: uma lista com os nomes, números de sócio, datas de assinatura e rúbricas dos 270 signatários. Vinte páginas. Cada nome é um sócio que decidiu que já chega.

O Anexo 2: duzentas e setenta folhas individuais, uma por cada signatário, com a declaração assinada digitalmente via DocuSeal. Cada folha inclui verificação de email, rúbrica digital e registo temporal. É o equivalente digital de uma assinatura presencial, com validade legal ao abrigo do Regulamento eIDAS e do Decreto-Lei n.º 12/2021.

No total, quase trezentas páginas. Um dossier que se pousa numa secretária e que não desaparece.

O que o requerimento pede à Mesa:

Primeiro, que valide as assinaturas num prazo de cinco dias úteis. Que confirme quais dos 270 signatários são sócios efectivos com as quotas em dia e na plenitude dos seus direitos. E que comunique o resultado aos requerentes.

Segundo, e só depois dessa validação, que comunique o valor do depósito necessário para cobrir as despesas da assembleia, acompanhado de uma nota descritiva dos custos: espaço, segurança, equipamento, custos administrativos. A ordem é deliberada: primeiro a Mesa confirma que as assinaturas cumprem os requisitos, depois indica quanto custa. Não o contrário. Depositar dinheiro antes de saber se as assinaturas são aceites seria expor os sócios ao risco de perder fundos caso a Mesa decidisse invalidar o requerimento depois de receber o pagamento. E pedir um valor discriminado impede que os custos sejam inflacionados como barreira. Transparência nos dois sentidos.

Terceiro, após o depósito, a Mesa tem oito dias úteis para cumprir o artigo 72.º dos Estatutos e publicar a convocatória nos jornais.

O requerimento sugere ainda que a AG seja organizada nas instalações do clube, ao final da tarde ou ao sábado, para evitar custos desnecessários com aluguer de espaços externos. Cada euro conta.

O requerimento completo pode ser consultado aqui.


Duzentos e setenta sócios assinaram. O objectivo inicial era 250, para dar margem sobre os 20% exigidos, apesar de haver informações que 160 chegariam. Ultrapassámos. Cada assinatura acima do mínimo é uma mensagem: isto não é meia dúzia de descontentes. É uma vontade colectiva.


Agora vamos falar do Bessa.

Em março, começou discretamente. Trinta ativos do clube foram postos em leilão eletrónico: um apartamento, uma loja, 28 garagens. Nem metade foi vendida. A loja nas imediações do Bessa foi arrematada por 181 mil euros. Quinze garagens vendidas por valores entre os 21 e os 38 mil. O apartamento T1 duplex ficou sem propostas. Os outros 13 lotes também. Peça a peça, o património do Boavista começou a ser desmembrado. Sem fanfarra, sem comunicado da direção, sem que a maioria dos sócios sequer soubesse.

E agora o prato principal: o Estádio do Bessa Século XXI. Valor base: 31 milhões de euros. O complexo desportivo: 6,8 milhões. Leilão eletrónico de 27 de abril a 20 de maio. Caução de 25 mil euros para participar. Podem ser comprados em conjunto ou separadamente.

O estádio que foi inaugurado para o Euro 2004. Onde o Boavista jogou como campeão nacional. Onde se ouviram os gritos que agora não se ouvem. Aquele Bessa. A leilão. Por 38 milhões.

E a reação do Presidente? Adivinhem.

"Fomos hoje surpreendidos com a notícia do início do processo de leilão do Estádio do Bessa."

Surpreendidos. Outra vez.

A mesma direção que foi "surpreendida" quando a SAD falhou a inscrição na Liga 2. "Surpreendida" quando a administradora pediu o encerramento do clube. "Surpreendida" quando os credores votaram pela liquidação. E agora "surpreendida" com o leilão do estádio de um clube que está em processo de liquidação há sete meses.

O Boavista está em liquidação desde setembro de 2025, porque o actual Presidente se deu voluntariamente à insolvência sem consultar os sócios, achando que tinha soluções. A liquidação existe para vender ativos e pagar credores. O Bessa é o maior ativo. Que parte disto é surpreendente?

Mas o comunicado continua: "estão a ser trabalhadas soluções concretas para a recuperação do Clube." Soluções concretas. As mesmas soluções concretas que ouvimos há catorze meses. As mesmas que envolveram "mais de trinta investidores" e resultaram em zero. As mesmas que nos prometeram no programa eleitoral, nos comunicados, nas assembleias, nas mensagens de Messenger e que nunca, uma única vez, se materializaram em algo real.

E a cereja:


"Não é a primeira vez que, em momentos decisivos, surgem iniciativas que fragilizam o caminho de recuperação que temos vindo a construir."

Leiam de novo. A direção não especifica a que "iniciativas" se refere. Pode ser a petição dos 270 sócios. Pode ser a cobertura dos jornalistas. Pode ser a vontade dos credores. Mas a mensagem é clara: quem questiona, fragiliza. Duzentos e setenta sócios que exerceram um direito estatutário, jornalistas que documentam o abandono do Bessa, tudo isto são, na perspetiva de Garrido, obstáculos ao "caminho de recuperação." Os sócios, que pagam quotas, que financiaram em parte a sobrevivência do clube com donativos, que exigem uma assembleia prevista nos estatutos, são o problema. Não a direção que falhou todos os pagamentos. Não a gestão que levou à insolvência. Não o presidente que ficou incontactável em dezembro. Quem pergunta é que fragiliza.

É nestes momentos que a máscara cai por completo.


A questão que se coloca agora é simples e urgente: a Mesa da Assembleia Geral vai fazer o que os estatutos mandam?

O requerimento está entregue. As assinaturas estão lá. A base legal é clara. O artigo 67.º não dá margem de manobra: se os requisitos estiverem cumpridos, a AG é convocada. Não é uma decisão discricionária da Mesa. É uma obrigação.

O leilão do Bessa começa a 27 de abril. Se a Mesa arrastar os pés, se inventar objecções, se demorar semanas a "validar" assinaturas, o estádio pode ser vendido antes de os sócios terem sequer a oportunidade de se reunir e decidir o futuro do seu clube.

Cada dia que a Mesa demora é um dia a menos para os sócios actuarem. Cada semana de silêncio é uma semana em que o Bessa fica mais perto de ser vendido a um investidor qualquer enquanto os sócios assistem de fora.


É aqui que estamos. Duzentos e setenta boavisteiros disseram chega. O requerimento está na secretaria. O relógio está a contar. O Bessa está a leilão.

A bola está agora na Mesa da Assembleia Geral. E nós estamos a ver e escrutinar.

Se conheces alguém da Mesa, faz-lhe chegar uma mensagem simples: cumpram os estatutos. Se és sócio, aparece na assembleia quando for convocada. Se não és sócio, partilha isto com quem é.

O Boavista é dos sócios. É tempo de o provar.


Preto no Branco. P'la Bandeira.