Ideal Axadrezado #024 - Boavista FC encerrado por email

Às 15h30 de 15 de Julho, a Administradora de Insolvência encerrou toda a actividade do Boavista. A carta, o contexto, e o que não acaba hoje.

Bandeirola de canto com o emblema do Boavista FC, no Estádio do Bessa vazio, à noite.
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Às 15h30 do dia 15 de Julho de 2026, a Administradora de Insolvência encerrou o estabelecimento do Boavista Futebol Clube. Todas as actividades. Todas as modalidades. Todos os contratos de trabalho.

Não foi por via de um comunicado do clube aos sócios. Não foi uma conferência de imprensa. Foi um email aos directores de modalidade, que os pais dos atletas foram recebendo ao longo do dia, reencaminhada de caixa de email em caixa de email, como se reencaminham as más notícias.

A carta

Transcrevo-a na íntegra, para registo. Este blog existe para documentar, e há documentos que têm de ficar guardados onde toda a gente os possa reler daqui a dez anos, porque a culpa não morre solteira.

Exmo. (a) Senhor (a) Diretor (a) de Modalidade

No seguimento dos anteriores contactos e reuniões, venho pela presente, com muita tristeza, dar conhecimento a V/ Exas., que, até ao momento, não se verificou o depósito na conta da Massa Insolvente, por qualquer interveniente, do donativo (com caráter liberatório) que permitisse assegurar as despesas correntes da estrutura do Clube do mês de junho/2026, assim como o "défice" estimado das modalidades desse mesmo mês.

Acresce que, efetuadas as devidas diligências, não vislumbra a Administradora da Insolvência (AI), qualquer perspetiva que o donativo em causa - assim como o que seria necessário para o corrente mês -, venha a ser depositado na conta da Massa Insolvente, o que, conforme discutido na Assembleia de Credores que se realizou em 16/12/2025, implica um prejuízo para a Massa Insolvente, com o avolumar das dívidas mensais derivadas do funcionamento do estabelecimento, que constituem dívidas da Massa Insolvente.

Em face do exposto, venho comunicar a V/ Exas. que, estando a ser integralmente incumpridos dos pressupostos determinados na referida Assembleia de Credores para a manutenção em funcionamento da atividade da Insolvente, no dia 15/07/2026, pelas 15h30m, a AI executará a deliberação da Assembleia de Credores em causa, procedendo ao encerramento do estabelecimento da Insolvente, encerrado todas as atividades desenvolvidas pelo BFC no Estádio do Bessa e espaços adjacentes, no qual se incluem todas as modalidades desenvolvidas pelo BFC.

Assim, como já referimos, o estabelecimento/instalações serão encerradas, assim como a atividade e, em consequência, as modalidades do BFC, sendo que, o levantamento dos pertences pessoais que possam estar depositados nas instalações do Estádio do Bessa poderá ser agendado com a AI.

Resta-nos agradecer a todos os diretores, adjuntos e respetivos treinadores pela sua grandiosa dedicação, quase sem limites, pelos excelentes atletas que formaram e que tanto engrandeceu o já prestigiado nome do Boavista Futebol Clube.

Por fim, e como não poderia de ser uma grande aplauso para os atletas que dignificaram esta instituição centenária por esse mundo fora.

Um BEM HAJA A TODOS.

Com os mais sinceros cumprimentos

Clarisse Barros/Administradora da Insolvência.

Leram bem. O donativo de Junho nunca foi depositado. O de Julho não tem perspectiva. E por isso, em execução de uma deliberação da Assembleia de Credores que já vinha de 16 de Dezembro de 2025, fechou-se tudo.

E agora sabemos o número, porque a imprensa o confirmou: cinquenta e cinco mil euros. Era esta a quantia mensal que faltou. O clube que deve 150 milhões não fechou pelos 150 milhões. Fechou porque ninguém, nem a Direcção que se comprometeu, nem os investidores que ela anunciou, nem o dono da SAD que vinha pagando, depositou os 55 mil que eram precisos e acordados.

Há frases neste processo que não me saem da cabeça.

A primeira: "o levantamento dos pertences pessoais que possam estar depositados nas instalações do Estádio do Bessa poderá ser agendado com a AI." Cento e vinte e dois anos de história, e o que resta aos atletas é marcar hora para ir buscar as sapatilhas.

E há uma outra, que não está na carta mas está nos prazos que a imprensa detalhou: as modalidades podem manter actividade até 31 de Julho, dia em que as chaves têm de ser entregues, com as instalações "livres de pessoas e bens". Livres de pessoas e bens. Quase cento e vinte e três anos de Boavista reduzidos a uma expressão de inventário, com duas semanas de pré-aviso para arrumar tudo.

Como se chegou aqui

O clube vivia, desde há meses, de donativos mensais (de Gérard Lopez, o accionista maioritário da SAD cuja gestão nos trouxe até aqui, e outros). Em Junho, o donativo não entrou. Em Julho, também não. A torneira fechou duas semanas antes de os credores da SAD votarem o plano de recuperação dela, a 31 de Julho. Tirem as vossas conclusões; eu tirei as minhas.

E se as conclusões precisassem de ajuda, chegou ela no próprio dia 15: o Bordéus, o outro clube de Gérard Lopez, foi excluído das ligas nacionais francesas pela DNCG, despromovido à sexta divisão, e caminha para a liquidação judicial até ao fim do mês, depois de a Sparta Capital ter desistido de reunir os nove milhões que o salvariam. Escrevi em Fevereiro que o Bordéus e o Mouscron seguiam o mesmo guião que nós, quase nota por nota. Enganei-me numa coisa: não era um guião, era um cronómetro. E tocou nos dois países no mesmo dia.

E os "investidores que têm vindo a colaborar com a Direcção na construção de uma solução de recuperação", aqueles do email de 10 de Junho? Não depositaram um euro.

E o Presidente? Reagiu. Ao Jornal de Notícias: "Estamos a trabalhar para restabelecermos a atividade desportiva o mais rapidamente possível." Reconheces o padrão? Em Fevereiro, confrontado por um texto, respondeu-me em privado no Messenger. Em Julho, confrontado com o encerramento do clube, responde a um jornal. Aos sócios que o elegeram, nem em Fevereiro nem agora: zero comunicados, zero assembleias, zero explicações.

Em Fevereiro escrevi que os jornalistas nos tratavam como conceito, que escreviam necrológios em tom de quem descreve a morte de um parente distante. Hoje os títulos dizem, letra por letra, "É o fim do Boavista". Desta vez não lhes chamo exagerados.

O que acaba hoje, e o que não acaba

Importa ser rigoroso, hoje mais do que nunca, porque vai ler-se muita coisa errada nos próximos dias.

O que acaba hoje é a actividade: os treinos, as equipas, os funcionários, o clube enquanto coisa viva que funciona todos os dias.

O que NÃO acaba hoje: a associação Boavista Futebol Clube não se extinguiu esta tarde; o processo de insolvência continua até ao fim, com o património, a marca e os símbolos ainda na massa insolvente; e a SAD é outro processo, com outra data, 31 de Julho. Quem quiser perceber a diferença entre as duas insolvências tem a explicação completa em unidospeloboavista.pt.

O Boavista, enquanto instituição jurídica e enquanto ideia, ainda existe. O que mataram hoje foi o quotidiano.

O que podes fazer, hoje

Pouco, outra vez. Mas hoje o pouco é mais importante do que nunca.

Aos pais e atletas: não dispersem em silêncio. Guardem o email que receberam, os registos, as fotografias, os contactos dos colegas de equipa e dos treinadores. Uma comunidade que se mantém contactável é uma comunidade que pode voltar a juntar-se.

Aos directores e treinadores: os registos das vossas secções (históricos, inscrições federativas, palmarés) valem ouro. Guardem tudo.

Aos funcionários: os vossos créditos salariais e indemnizações reclamam-se no processo de insolvência, e o Fundo de Garantia Salarial existe exactamente para situações como esta. Informem-se antes de assinar seja o que for.

A todos: acompanhem isto por quem documenta com fontes. A cronologia está actualizada em unidospeloboavista.pt, e continuará a estar, aconteça o que acontecer. Façam-se ouvir nas redes sociais. Vistam o xadrez, mais uma vez.

Confesso-vos que hoje me faltou o fôlego para escrever mais do que isto. Há dias em que a análise cede o lugar ao luto. Mas amanhã volta a ser preciso olhar para os factos, porque o processo não acabou, e os próximos capítulos (o plano da SAD, com aprovação-alvo a 31 de Julho e reunião de credores a 11 de Agosto, o destino do Bessa, o destino do nome Boavista) vão precisar de gente atenta.

A Assembleia Geral é (quando a Mesa da Assembleia Geral assim o entender), nos termos do artigo 58.º dos Estatutos, a autoridade suprema do clube. Aos dia de hoje, encerram o clube sem que ela alguma vez tenha sido ouvida.

Preto no Branco. P'la Bandeira.