Ideal Axadrezado #023 - Desceram todas. Os miúdos, não.

Quatro equipas seniores, quatro descidas. Quinze equipas extintas. E uma formação que aguentou tudo. O balanço da época 2025-26, em números.

Pivot de telejornal com gravata axadrezada, diante do Estádio do Bessa vazio, anuncia: Boa noite. Desceram todas.
Balanço da época 2025/26.

A época 2025-26 acabou. Ninguém fez a festa, ninguém fez o funeral, e o Boavista precisava das duas coisas.

Faço-o eu. Com números, porque os números não têm direcção nem assessoria de imprensa por emails.

O Boavista Futebol Clube teve pelo menos quatro equipas seniores em competição em 2025-26. Futebol masculino. Futebol feminino. Voleibol feminino. Futsal.

Desceram as quatro.

Não desceu uma, não desceram duas com azar. Todas. Cem por cento das equipas seniores do Boavista foram despromovidas na mesma época. Não me lembro de nada assim na nossa história, e oxalá nunca mais me lembre.

Vamos aos números, um por um, porque cada um tem a sua forma de doer.

Os seniores, escalão a escalão

O futebol sénior, entregue à SAD, fez 34 jornadas na Liga Pro: três vitórias, cinco empates, vinte e seis derrotas. Catorze pontos. Trinta e seis golos marcados, oitenta e cinco sofridos. Décimo sétimo em dezoito. Desceu. Foi este o futebol profissional que a gestão de Gérard Lopez nos deu na época em que a SAD entrou em liquidação: miúdos atirados para uma liga de adultos, sem reforços, sem estrutura, sem rede.

O futebol feminino sénior lutou na fase de manutenção da III Divisão e ficou em quinto entre seis. Em ano de reforma da prova, isso significa descida para a nova e última IV Divisão. São as herdeiras das pioneiras do futebol feminino em Portugal, as campeãs da primeira edição da prova em 1985/86, onze títulos nacionais, dez deles consecutivos. Quem abriu o caminho para todas vai jogar na quarta divisão.

O voleibol feminino sénior fez catorze jogos na Série dos Últimos da II Divisão: uma vitória, treze derrotas, oito sets ganhos, quarenta e dois perdidos. Último lugar. Descida para a III Divisão, a última.

E o futsal sénior. Respira fundo antes de leres este. Catorze jogos: zero vitórias, um empate, treze derrotas. Um ponto. Vinte e dois golos marcados. Cento e quarenta e três sofridos.

Cento e quarenta e três. Mais de dez por jogo. Isto não é uma classificação. É negligência.

O que já nem sequer desceu

Há um degrau abaixo de descer: deixar de existir.

O andebol do Boavista, que enchia pavilhões de miúdos e graúdos e foi durante décadas uma das grandes escolas da modalidade no Porto, morreu por inteiro em 2025: onze equipas extintas, dos seniores aos sub-12. A equipa de futebol sénior B do Clube foi inscrita na distrital e riscada da prova ao fim de sucessivas faltas de comparência: não desceu, não foi extinta em papel timbrado, simplesmente deixou de aparecer. O futsal de formação perdeu os sub-15, os sub-13 e os sub-11.

Quinze equipas do Boavista deixaram de existir. Não desceram: desapareceram. Centenas de miúdos que vestiam o axadrezado deixaram de o vestir, e cada um deles foi uma decisão, uma omissão, um pagamento falhado de alguém com nome e cargo.

E agora a parte que ninguém conta

Se a época fosse só isto, este texto era uma certidão de óbito. Não é. Porque enquanto os seniores caíam e as equipas fechavam, a base do clube fez uma coisa extraordinária: aguentou.

Os sub-15 do futebol fizeram a fase de manutenção da II Divisão nacional quase perfeita: dez vitórias em catorze jogos, quarenta e um golos marcados, doze sofridos, segundo lugar. Mantiveram o Boavista no mapa nacional do escalão.

Os sub-15 C, na distrital, ganharam dezanove de vinte e dois jogos. Cento e doze golos marcados, vinte e três sofridos. Segundo lugar numa divisão de doze.

Os sub-13 ganharam quinze jogos e marcaram setenta e cinco golos. Os sub-14, os sub-17, os sub-19: todos cumpriram, todos se mantiveram, nos nacionais e nos distritais. Dos quinze escalões que sobreviveram à época, onze mantiveram a categoria. As quatro descidas foram todas, todas, nos seniores.

Lê isto outra vez, porque é o retrato mais exacto do Boavista em 2026: o clube caiu exactamente na proporção em que dependia dos adultos que o gerem, e aguentou exactamente na proporção em que dependeu dos miúdos que o jogam e de quem os treina, muitas vezes sem receber, em instalações que entretanto foram arrematadas em leilão.

A pirâmide está de pernas para o ar. No Boavista, a base sustenta o topo.

E há uma pergunta que este balanço não pode deixar passar: onde estava a Direcção enquanto tudo isto descia, fechava e deixava de aparecer aos jogos?

A resposta é oficial e consta do processo: em lado nenhum. Desde Fevereiro que a administradora de insolvência retirou à Direcção a gestão do clube, depois de falharem os depósitos a que estavam obrigados. Quem administra o que resta do Boavista é a administradora, com os credores. A Direcção ficou com os cargos, os títulos e as fotografias.

E sabes como é que os sócios foram informados de que quem elegeram já não administra nada? Não foram. Nunca. Nem um comunicado, nem uma linha, nem uma assembleia. Soubemo-lo pelos jornais e pelos autos do tribunal. Quem prometeu setenta medidas na candidatura não teve uma palavra para anunciar a septuagésima primeira: a de que tinha sido afastado da gestão do clube que jurou salvar.

O que fica para 2026/27

Não sei em que divisões o Boavista vai competir na próxima época se é que vai competir, e neste momento ninguém sabe: depende de um plano de recuperação, de donativos mensais que podem parar com efeitos a quinze dias, e de um complexo desportivo arrematado em leilão por comprador que não conhecemos.

Sei o que os números desta época dizem: o que resta de vivo no Boavista são os mil e quinhentos atletas da formação e das modalidades, e as pessoas que todos os dias os põem a treinar no meio do caos. É essa a fundação sobre a qual qualquer futuro vai ser construído. Não há outra.

Os números desta crónica vêm todos de um dashboard independente que acompanha o estado das modalidades do Boavista, época a época, com as classificações finais e a comparação com a época anterior: boavistamodalidades.com. Sem opinião, sem filtro. Só o que aconteceu.

A opinião fica aqui, e resume-se numa frase: uma direcção que perdeu quatro seniores em quatro, extinguiu quinze equipas e já nem sequer administra o clube não tem balanço para apresentar. Tem contas para prestar.

Preto no Branco. P'la Bandeira.