Ideal Axadrezado #018 - O Boavista está a morrer. Não está morto.
Actualização (28/02/2026): Este texto gerou uma reacção. Não a que os sócios mereciam (nem um comunicado, nem uma Assembleia Geral) mas uma mensagem privada no Messenger do Dr. Garrido Pereira, a pedir para "conversar acerca do Boavista". Dez dias em silêncio para quem o elegeu. Uma mensagem privada para quem o questionou. Escrevi a minha resposta e o que penso sobre isso no Ideal Axadrezado #019.
Estive calado durante meses. Não por falta de assunto. Houve dias em que o assunto me sufocava. Mas há alturas em que as palavras parece uma traição àquilo que sentimos. Como se escrever ou falar sobre a agonia fosse torná-la um espetáculo para outros. Como se cada frase feita sobre a deterioração do Boavista servisse de entretenimento a quem nos quer ver cair e de álibi a quem nos empurrou e ainda empurra.
Estive calado porque não sabia o que dizer que não fosse um grito. E os gritos, no Bessa, costumavam ser de apoio das bancadas. Agora não há equipa (nem estádio) para apoiar.
Mas o silêncio também é uma forma de cumplicidade. E eu recuso ser cúmplice.
Vou dispensar o tom de relatório. Quem acompanha a situação conhece os números. Sabe que o Boavista Futebol Clube (atenção, o Clube, não a SAD, embora a ligação umbilical entre ambos seja precisamente o veneno que nos corrói) foi declarado insolvente. Sabe que a liquidação foi aprovada em Tribunal. Sabe que nos inscrevemos na última divisão distrital do Porto e desistimos antes de jogar um único minuto, porque as dívidas da SAD nos perseguem como uma sombra que não pedimos e que não nos pertence. Sabe que não temos equipa sénior. Sabe que o nosso estádio do Bessa está fechado desde o início do Verão, que os nossos imóveis estão a ser leiloados, que a direção foi destituída pela administradora de insolvência há mais de uma semana, e que a sobrevivência do clube, mês a mês, parcela a parcela, cinquenta e quatro mil euros de cada vez, depende agora dos donativos de pessoas como Gérard López.
Leiam outra vez essa última frase. O clube centenário que foi Campeão Nacional ainda neste século, o quarto grande do futebol português, sobrevive porque o acionista maioritário da SAD (a mesma SAD cuja gestão nos arrastou até aqui) depositou na conta da massa insolvente do Clube o valor que a direção eleita pelos sócios não conseguiu garantir.
Não sei se isto é ironia. Sei que dói.
Há quem fale do Boavista como se já fosse passado. Jornalistas que escrevem necrológios em tom de quem descreve a morte de um parente distante. Com respeito suficiente para não parecerem insensíveis, mas com desapego suficiente para virarem a página antes do café arrefecer. Transformaram-nos em conceito. Em metáfora. Em aviso para os outros.
Eu compreendo. Nós, os Boavisteiros, somos poucos o suficiente para que os outros nos ignorem sem remorsos. Somos o tamanho exato da irrelevância conveniente: grandes o suficiente para ter história, pequenos o suficiente para que ninguém se sinta obrigado a fazer nada.
Mas não é dos jornalistas que me queixo. É de nós. De todos nós que deixámos isto acontecer. Alguns por ação, a maioria por exaustão.
É preciso falar da ferida aberta entre o Clube e a SAD, porque é aí que mora a doença.
Gérard López entrou no Boavista como entrou no Bordéus e no Mouscron: de longe. Um líder ausente, descreveram-no os jornalistas franceses que o acompanharam. Um investidor que nomeava os seus homens, mantinha contacto à distância e apostava dinheiro que os clubes não tinham. O Bordéus caiu para a quarta divisão. O Mouscron sucumbiu. E o Boavista segue o mesmo guião, quase nota por nota.
A SAD, liderada por Fary Faye e com os impedimentos de inscrição de jogadores na FIFA, joga a primeira divisão distrital em Ramalde, a dois quilómetros e meio do Bessa que está fechado e inutilizado, com miúdos dos sub-19. É a última classificada. O Clube acusou a SAD de incumprir o protocolo. A SAD acusou o Clube de fazer ataques constantes em vez de apresentar soluções. Comunicados cruzados, linguagem de tribunal, culpa atirada de um lado para o outro como uma bola que ninguém quer dominar e controlar.
E depois, quando o Clube falha o pagamento de fevereiro e a administradora se prepara para fechar as portas, é López que deposita os 54 mil euros que nos mantêm vivos. Até à próxima semana, quando vencem novas prestações e o ciclo recomeça. O mesmo López cujo grupo de investimento criou o buraco de 150 milhões. Há quem veja generosidade. Eu vejo um homem a pagar uma fração do que destruiu para manter aceso um ativo na forma do estádio, que talvez lhe interesse no futuro. Não me peçam gratidão por isso. Peçam-me, no máximo, que reconheça a realidade: sem esse depósito, o Boavista teria fechado portas em Fevereiro de 2026 nas mãos do "Presidente" Garrido Pereira. E isso é tão indigno quanto é verdadeiro.
E enquanto isto acontece, quem devia falar cala-se. Ou pior: fala quem não tem legitimidade para o fazer.
O "Presidente" (?) Garrido Pereira foi exonerado pela administradora de insolvência a 18 de fevereiro. A acta está no tribunal. Passaram-se dias. E o presidente que foi eleito pelos sócios, e que por isso lhes deve no mínimo uma explicação, não se dignou a emitir um comunicado, a convocar os associados, ou sequer a reconhecer publicamente que foi afastado. Silêncio. Não o silêncio de quem tem dignidade. O silêncio de quem se agarra ao poleiro mesmo quando o poleiro já não existe. E se eventualmente quebrar esse silêncio, sabemos todos o que virá: mais um comunicado a culpar a SAD por tudo, escrito com o mesmo entusiasmo com que se gera um texto por inteligência artificial, sem uma linha de autocrítica.
Entretanto, o Record publica uma entrevista com Raúl Ralha, apresentado como "presidente da Mesa da Assembleia Geral". Ralha é secretário da Mesa. Secretário. Mas o título diz "presidente", a entrevista trata-o como a voz do clube, e lá aparece ele a proclamar que "o adepto não se vai dar por derrotado com o fecho do clube". A lata. Como se a derrota ou a resistência dos Boavisteiros dependesse de um secretário da Mesa a fazer de porta-voz no jornal. Enquanto quem devia falar se esconde, quem não tem mandato para falar ocupa o palco. É o teatro institucional no seu estado mais puro. E mais ofensivo.
Há uma coisa que precisa de ser dita sem meias palavras: o Boavista não chegou aqui por acaso, por azar ou por fatalidade. Chegou aqui porque, durante anos, houve quem tratasse o clube como veículo de interesses pessoais. Porque houve gestão danosa, irresponsabilidade financeira, promessas vazias, investidores fantasma e uma cadeia de decisões que, olhadas em retrospetiva, parecem saídas de um manual de como destruir uma instituição centenária.
Não vou nomear todos os responsáveis. Não porque não saiba (sei, e vocês também sabem) mas porque a lista é tão longa que transformaria esta crónica num auto de acusação. E a verdade é que a responsabilidade não cabe só a quem assinou. Cabe a quem calou. A quem aceitou. A quem olhou para o lado porque ainda havia futebol ao sábado e o cachecol ainda aquecia o pescoço.
Eu incluo-me nessa lista. Todos nos devemos incluir.
Mas o que significa "reconstruir" quando não há quase nada para reconstruir?
Significa começar por aceitar onde estamos. E onde estamos é aqui: sem equipa sénior, sem estádio operacional, sem participação em qualquer competição de futebol esta época. Inscrevemo-nos na quarta divisão distrital, a última, o fundo do poço do futebol organizado no Porto, e desistimos antes da primeira bola rolar, porque os impedimentos da FIFA que pesam sobre a SAD caíram também sobre nós, por solidariedade de dívida. Três jornadas, três derrotas por falta de comparência. Nem sequer derrotas no campo. Derrotas no vazio. Derrotas na secretaria.
Reconstruir, neste contexto, não é falar de subidas de divisão ou de planos quinquenais. Reconstruir é garantir que em Setembro de 2026 existe uma equipa do Boavista Futebol Clube que entra num campo e disputa um jogo de futebol. Parece pouco. Parece ridiculamente pouco para quem foi campeão nacional, ganhou cinco Taças de Portugal, três Supertaças e chegou às meias-finais da Taça UEFA. Mas é tudo. E se não garantirmos isso, o resto é conversa.
E, no entanto, há quem resista.
Há quase mil e quinhentos jovens que continuam a treinar modalidades amadoras no complexo do Bessa. Mil e quinhentas crianças e adolescentes cujas famílias, todas as semanas, levam os filhos a praticar desporto com o emblema axadrezado ao peito. A direção que lhes prometeu apoio extinguiu oito das suas equipas. Basta pegar no programa eleitoral e verificar promessa a promessa. Setenta promessas. Duas cumpridas, ambas sobre ciclismo. Trinta e nove por cumprir. E vinte e cinco onde a direção fez o oposto do que prometeu: prometeu profissionalizar as modalidades e extinguiu equipas; prometeu modernizar o Bessa e o estádio foi interditado; prometeu transparência financeira e lançou uma campanha de donativos para sobreviver mês a mês.
Há sócios que tiraram do bolso quarenta, quatrocentos, quatro mil euros numa campanha de angariação que nos permitiu pagar uma parcela. Gente que não veio salvar o Boavista por glória ou por retorno, mas porque entende que há coisas que valem a pena simplesmente por existirem. Gente que vê naquele xadrez preto e branco algo que nenhum tribunal pode liquidar.
Eu sei que a paixão não paga dívidas. Sei que o amor ao Clube não substitui certidões da Segurança Social nem resolve impedimentos da FIFA. Sei que o romantismo, quando desligado da realidade, é tão destrutivo quanto a ganância. Quantas vezes aceitámos disparates porque nos prometeram que era "pelo Boavista"?
Mas sei também que sem essa gente, sem os que pagam a quota sabendo que não há equipa para ver jogar, sem os que vão às assembleias sabendo que vão ouvir más notícias, sem os que recusam aceitar o fim, o Boavista já teria morrido. Não este mês. Há muitos meses.
O Boavista está a morrer. Mas não está morto. E enquanto não estiver morto, temos a obrigação de lutar para que não morra. Não o direito. A obrigação.
Sei que "lutar" é uma palavra gasta, abusada por dirigentes que a usam em comunicados escritos com a mesma convicção com que se paga o condomínio. Mas eu não estou a falar dessa luta. Estou a falar de uma coisa muito mais simples e muito mais difícil: agir.
Agir é pagar a quota. É ir à assembleia. É fazer perguntas incómodas e exigir respostas concretas. É recusar aceitar que o destino do Boavista esteja nas mãos de um tribunal em Vila Nova de Gaia, ou de um investidor luxemburguês que pode decidir parar os donativos no mês que vem. É recusar o próximo salvador com um PowerPoint bonito e promessas de regresso à Primeira Liga em três anos.
Mas agir é também olhar para o que temos à frente e chamar as coisas pelo nome. Esta direção não dirige nada. A administradora de insolvência retirou-lhes os poderes e eles continuam sentados nas cadeiras, com o título no cartão e zero capacidade de decisão. Não se demitem. Não resolvem. Não lideram. Ocupam espaço. E enquanto o ocupam, ninguém com competência pode ocupá-lo.
Os estatutos existem para isto. Os sócios têm o poder de convocar uma assembleia geral extraordinária e destituir órgãos sociais que falharam. Não é um golpe. É o mecanismo mais básico da democracia associativa. Depois, uma comissão administrativa com mandato limitado e objectivos claros: estabilizar, negociar com os credores, garantir o funcionamento mínimo do clube e preparar o terreno para que uma futura direção competente possa reconstruir sobre bases sólidas.
Não é uma solução mágica. É um caminho difícil, lento e provavelmente doloroso. Mas é legítimo, é estatutário, e é infinitamente melhor do que esperar sentados que o próximo comunicado vago nos diga que estão a "trabalhar com dedicação e empenho pelo futuro do clube" e "a culpa é da SAD porque tínhamos uma solução quase pronta e vamos morrer na praia".
O Boavista é nosso. E "nosso" implica responsabilidade. Implica indignação quando a indignação é devida. Implica recusar a resignação, porque a resignação é exactamente o que todos os que nos trouxeram até aqui mais querem. Boavisteiros calados são Boavisteiros que não incomodam.
Eu recuso calar-me.
Preto no Branco. P'la Bandeira.
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