Ideal Axadrezado #009 - João Alves, o Luvas Pretas e a sua camisola 75/76

Na segunda edição da "Camisola da Semana" temos de expressar a mais profunda gratidão ao nosso dedicado boavisteiro que, com extraordinária generosidade, disponibilizou para esta rubrica verdadeiros tesouros da história do nosso clube: a camisola de jogo utilizada por João Alves na temporada 1975/76 e as medalhas originais da conquista das Taças de Portugal de 1974/75 e 1975/76. Estas relíquias, cuidadosamente preservadas durante quase cinco décadas, permitem-nos hoje não apenas ilustrar, mas verdadeiramente sentir a grandeza daquele Boavista que ousou desafiar os grandes do futebol português. É através de gestos como este que mantemos viva a chama da nossa história axadrezada, ligando gerações de panteras pretas sob as mesmas cores que João Alves tão brilhantemente representou. Ao nosso generoso boavisteiro, o eterno agradecimento de toda a comunidade axadrezada.
Luvas Pretas: A Magia de João Alves no Boavista FC
No vasto panorama do futebol português, poucos jogadores conseguiram marcar uma era com tanto estilo e classe como João Alves. Para os adeptos mais graúdos do Boavista, o seu nome evoca memórias douradas - um período em que o xadrez era um símbolo de ambição e excelência que abalou as estruturas do futebol nacional, desafiando o domínio tradicional dos chamados "três grandes".
A Chegada ao Bessa e O Início de Uma Lenda
Foi no verão de 1974 que o Boavista, pela visão singular de José Maria Pedroto, resgatou João Alves do Montijo. Uma decisão que mudaria para sempre o clube do Bessa. Depois de ter passado pelo Benfica e pelo Varzim, Alves encontrou no Boavista o ambiente perfeito para florescer como atleta.
"O Pedroto foi o meu grande mestre e o pai do futebol como nós o chamamos." confidenciou Alves numa das suas entrevistas. "Foi ele que me domou, porque eu precisava de ser domado. Nunca tive um feitio fácil e tive pegas incríveis com ele, expulsou-me várias vezes do treino, mas tirou o melhor de mim e fez-me crescer."
A transferência para o Boavista aconteceu num momento crucial da carreira de João Alves. Depois de ter sido relegado a empréstimos pelo Benfica, o jovem médio precisava de um clube que acreditasse genuinamente no seu potencial. No Bessa, encontrou mais do que isso: descobriu uma família futebolística e um treinador que, apesar da exigência, sabia como extrair o melhor de cada jogador.
Juntamente com João Alves, Pedroto contratou outros dois jogadores do Montijo: Chico Mário e Carolino. Estas aquisições, aparentemente modestas, revelaram-se fundamentais para o projeto ambicioso que o treinador estava a construir no Bessa.
As Luvas Pretas: Um Legado Familiar
A imagem de marca de João Alves eram, inconfundivelmente, as luvas pretas. Uma homenagem ao avô Carlos, internacional português que jogou pelo Carcavelinhos e Académico do Porto nas décadas de 20 e 30. A história dessas luvas começou quando uma jovem fã ofereceu um par ao seu avô antes de um jogo contra o Benfica, dizendo-lhe que se as usasse, venceria a partida.
Inicialmente relutante, Carlos Alves acabou por calçá-las na segunda parte, com o Carcavelinhos em desvantagem. O resultado? Uma vitória histórica por 2-1. A partir desse momento, as luvas pretas tornaram-se uma tradição familiar que João Alves retomou dois dias após a morte do avô, em 14 de novembro de 1970, num jogo Malveira-Benfica (0-4) para o campeonato nacional de juniores.
"O meu avô pediu-me muitas vezes para eu jogar com as luvas, mas eu nunca tinha tido coragem. Nessa última vez ele fez-me o último pedido. Eu não tinha bem a noção de que ele ia morrer e passados dois ou três dias, faleceu. A partir daí achei por bem cumprir a promessa que lhe fiz," explicou Alves, revelando a dimensão emocional por trás deste símbolo tão característico.
No Boavista, essas luvas transformaram-se num emblema de excelência técnica e classe. Os adeptos axadrezados rapidamente se familiarizaram com aquela figura elegante que, mesmo nos dias mais quentes, nunca dispensava as suas luvas pretas. Mais do que uma superstição, era uma conexão profunda com as suas raízes familiares e com a história do futebol português.
A Revolução Axadrezada: O "Boavistão" de Pedroto
A chegada de João Alves ao Boavista coincidiu com uma das épocas mais revolucionárias do futebol português. Após o 25 de Abril de 1974, respiravam-se novos ares no país e no desporto. José Maria Pedroto, visionário e inovador, aproveitou esse momento de transformação para construir um Boavista inovador, intenso e competitivo.
Aquilo que ficou conhecido como o início do "Boavistão" era uma equipa que combinava juventude, técnica e uma abordagem tática moderna para a época. João Alves, com a sua visão de jogo privilegiada e capacidade de organização, tornou-se a peça central deste projeto ambicioso.
Numa época em que o futebol português ainda privilegiava fortemente o esforço físico sobre a técnica, João Alves representava uma nova filosofia: a do médio inteligente, capaz de pensar o jogo e de o comandar com passes precisos e decisões rápidas. No sistema táctico de Pedroto, ele era o maestro que ditava o ritmo e alimentava os avançados com passes milimétricos.

A Primeira Taça: O Gosto da Vingança
A temporada de 1974/75 marcou a entrada do Boavista na história do futebol português ao conquistar a sua primeira Taça de Portugal. Na final disputada a 15 de junho de 1975, os axadrezados defrontaram o Benfica, o antigo clube de João Alves.
Num estádio repleto, o Boavista venceu por 2-1, com Alves a marcar o golo decisivo. Este momento representou não apenas um triunfo coletivo, mas também uma afirmação pessoal para o médio, que tinha sido "descartado" pelo clube da Luz.
A conquista teve um sabor especial para toda a comunidade boavisteira. Pela primeira vez, um clube fora do eixo tradicional dos "três grandes" erguia o troféu mais desejado do futebol português a seguir ao campeonato. Uma medalha dessa conquista, cuidadosamente preservada por um Boavisteiro que nos cedeu temporariamente, representa não apenas um triunfo desportivo, mas um momento de viragem na história do clube do Bessa.

A Época Dourada de 1975/76: Vice-Campeões
Se a conquista da Taça de Portugal em 1974/75 foi impressionante, o que o Boavista conseguiu na temporada seguinte foi verdadeiramente revolucionário. A equipa de Pedroto, com João Alves no seu auge, não só defendeu com sucesso o título da Taça de Portugal, como esteve a um passo de se sagrar campeã nacional.
"Era a melhor equipa que havia na altura em Portugal" afirmou Alves sobre aquele Boavista. Um elogio significativo vindo de um jogador que, ao longo da sua carreira, representou clubes como Benfica, Salamanca e Paris Saint-Germain.
Durante essa temporada memorável, o médio comandou o meio-campo axadrezado com uma visão de jogo extraordinária. Cada passe, cada movimento era executado com precisão cirúrgica, revelando a inteligência táctica que faria dele um dos melhores jogadores da sua geração. Foi nessa época que João Alves foi eleito o melhor jogador do ano em Portugal, um reconhecimento justo para a sua influência no futebol nacional.
O Boavista terminou a época em segundo lugar, a apenas dois pontos do Benfica. Para muitos adeptos e especialistas, foi o campeonato que o clube "não ganhou", mas que mereceu ganhar pelo futebol praticado e pela consistência demonstrada ao longo da temporada.


Bi-Campeões da Taça de Portugal: A Consagração
A temporada de 1975/76 trouxe nova alegria aos adeptos axadrezados com a conquista da segunda Taça de Portugal consecutiva. Este feito extraordinário consolidou o Boavista como uma força do futebol português e João Alves como um dos seus maiores expoentes.
A final, foi mais uma demonstração da qualidade individual e colectiva daquele Boavista. João Alves, já consagrado como o maestro da equipa, dirigiu as operações com a sua habitual elegância, contribuindo decisivamente para uma vitória que ficaria eternizada no historial do clube.
Com duas Taças de Portugal consecutivas no currículo, o Boavista estabelecia-se definitivamente como uma força a ser respeitada. A equipa do Bessa já não era vista apenas como um "clube de bairro", mas como um verdadeiro candidato a todos os troféus em disputa.


O Estilo de Jogo: Elegância em Campo
O estilo de jogo de João Alves no Boavista era um reflexo da sua personalidade em campo: elegante, técnico e inteligente. Com uma capacidade rara de antecipar jogadas e encontrar espaços onde outros viam apenas adversários, João Alves elevou o nível do meio-campo axadrezado.
As suas características técnicas faziam dele o jogador perfeito para o sistema de Pedroto. Num futebol que começava a valorizar mais a posse de bola e a construção paciente, Alves representava o expoente máximo dessa filosofia. Não era o mais rápido, nem o mais físico, mas compensava largamente com inteligência e técnica apurada.
Com a bola nos pés, transmitia uma sensação de segurança a toda a equipa. Os adeptos do Bessa sabiam que, enquanto a bola estivesse com João Alves, estava em boas mãos – ou melhor, em bons pés. As suas assistências tornaram-se lendárias, assim como a capacidade de marcar golos decisivos em momentos cruciais.
A Passagem para o Salamanca: Uma Perda para o Bessa
Após duas temporadas extraordinárias no Boavista, era inevitável que os grandes clubes europeus olhassem com interesse para João Alves. O Salamanca, de Espanha, acabou por assegurar a sua contratação no verão de 1976, pagando 12 mil contos pelo seu passe – uma transferência recorde na época que beneficiou significativamente os cofres do clube axadrezado.
A saída de Alves foi um golpe duro para os adeptos do Boavista, mas também um motivo de orgulho. Afinal, não era todos os dias que um jogador formado em Portugal, e vindo de um clube que não era um dos "três grandes", assinava por um clube da prestigiada Liga espanhola.
O negócio foi orquestrado por Valentim Loureiro e Pinto Sousa, dirigentes do Boavista na altura, que acompanharam Alves e a sua esposa até Salamanca para finalizar os detalhes da transferência. Foi uma negociação histórica que abriu as portas para futuras transferências de jogadores portugueses para o estrangeiro.
Esta venda demonstrou também a capacidade do Boavista para desenvolver talentos e valorizá-los no mercado internacional – uma competência que o clube continuaria a demonstrar nas décadas seguintes, tornando-se conhecido pela sua excelente formação e olho para encontrar diamantes em bruto.
Em Espanha, João Alves continuou a brilhar. Na temporada 1977/78, foi eleito o melhor jogador estrangeiro da liga, superando nomes como Johan Cruijff, Neeskens e Kempes. Este reconhecimento internacional validava a qualidade que os adeptos do Boavista tinham testemunhado durante duas temporadas inesquecíveis.
Em 83/84 regressa ao Bessa até ao final da época de 84/85 onde termina a carreira de jogador.
A Dimensão Internacional: Representando Portugal
A excelência de João Alves no Boavista não passou despercebida ao selecionador nacional. Foi precisamente durante a sua passagem pelo clube axadrezado que Alves se consolidou como internacional português, acumulando parte significativa das suas 36 internacionalizações.
Curiosamente, foi José Maria Pedroto quem o lançou definitivamente na seleção, quando assumiu o cargo de selecionador nacional. Num treino entre a seleção de esperanças e a seleção A, Pedroto decidiu transferir João Alves da equipa de esperanças para a principal a meio do encontro – um gesto simbólico que marcaria o início da sua afirmação internacional.
Representar Portugal enquanto jogador do Boavista foi um motivo de orgulho não apenas para Alves, mas para todo o clube. Era a prova definitiva de que o Boavista já não era um clube periférico, mas sim uma potência capaz de produzir e atrair talentos de nível internacional.
O Regresso como Treinador: Fechando o Círculo
A história de João Alves com o Boavista não terminou com a sua transferência para o Salamanca. Anos mais tarde, após uma carreira brilhante como jogador, regressou ao Bessa, primeiro ainda como jogador em 83/84 e 84/85.
Após encerrar a carreira de jogador precisamente no Boavista, em 1985, João Alves iniciou ali mesmo a sua jornada como treinador. A transição foi quase natural: a pedido de Valentim Loureiro, substituiu Mário Wilson no comando técnico da equipa.
Como treinador do Boavista, Alves procurou implementar uma filosofia de jogo baseada nos princípios que tinha absorvido como jogador: valorização da técnica, inteligência tática e um futebol ofensivo e bem estruturado. Durante o seu tempo no Bessa, conseguiu resultados consistentes que agradaram aos adeptos do Bessa.
Embora não tenha conquistado troféus como treinador do Boavista, o seu trabalho foi amplamente reconhecido e serviu como base para a sua posterior carreira de treinador, que incluiria passagens por clubes como Estrela da Amadora (onde venceu uma Taça de Portugal), Vitória de Guimarães, Belenenses e o próprio Salamanca, entre outros.
Este regresso fechou um círculo na relação de Alves com o clube axadrezado. Primeiro como jogador talentoso, depois como treinador, o seu nome ficará para sempre ligado às páginas mais gloriosas da história do Boavista FC.
O Legado no Boavista
Apesar da sua passagem pelo Boavista ter durado apenas quatro temporadas como jogador, o impacto de João Alves no clube foi imenso e duradouro. Ele ajudou a transformar uma equipa de meio da tabela num verdadeiro candidato ao título, alterando para sempre as expectativas e ambições do clube.
O seu legado vai muito além dos troféus conquistados. João Alves representa uma era em que o Boavista ousou sonhar alto e desafiar o domínio tradicional dos "três grandes". Uma era em que o xadrez não se limitava a seguir as regras do jogo, mas procurava reescrevê-las. Num Portugal recém-saído da ditadura, onde o futebol era dominado por uma estrutura rígida e hierarquizada, o sucesso de um clube como o Boavista representava mais do que troféus – era um símbolo de que as estruturas tradicionais podiam ser desafiadas.
Para os jovens jogadores que surgiram depois no Bessa, João Alves tornou-se uma referência e um exemplo a seguir. A sua técnica, visão de jogo e, claro, as emblemáticas luvas pretas, inspiraram gerações de boavisteiros que cresceram a ouvir histórias sobre aquele médio especial que ajudou a transformar o clube.
Quando olhamos para as fotografias da época, para a camisola que ele usou com tanto orgulho e para as medalhas conquistadas, somos transportados para um tempo em que o Boavista, graças a jogadores como João Alves, ousou desafiar a ordem estabelecida do futebol português.
Naquele período mágico de meados dos anos 70, o xadrez não era apenas um símbolo - era uma declaração de intenções. E João Alves, com a sua elegância e classe, era o perfeito embaixador dessa ambição. As suas prestações no Boavista valeram-lhe o reconhecimento internacional e a admiração de adversários, companheiros e adeptos.
As luvas pretas continuarão para sempre associadas ao seu nome, mas para os adeptos do Boavista, João Alves será sempre muito mais do que isso: um símbolo de excelência, um artista do meio-campo e, acima de tudo, um jogador de ADN axadrezado que ajudou a transformar um clube e a inspirar gerações.
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