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Ideal Axadrezado #007 - Derrota Amarga e Acusação Injusta

Ideal Axadrezado #007 - Derrota Amarga e Acusação Injusta
Um excelente tifo dos Panteras Negras a dar o mote nas jornadas que faltamUm excelente tifo dos Panteras Negras a dar o mote nas jornadas que faltam

Auto-golo fatal e incidente lamentável marcam derrota que complica aspirações axadrezadas na luta pela permanência

O nosso Boavista acabou por sair derrotado na receção ao Vitória de Guimarães (1-2), num encontro que dominámos durante largos períodos, mas onde a sorte não esteve do nosso lado. Num Estádio do Bessa bem preenchido, que voltou a mostrar a força da massa adepta axadrezada, acabámos por ceder perante um conjunto vimaranense mais eficaz e que soube capitalizar os poucos erros que cometemos.

O embate começou com os nossos rapazes a assumirem uma postura sólida defensivamente, procurando explorar a velocidade de Ariyibi e Diaby nos contra-ataques. Lito Vidigal desenhou um esquema tático que inicialmente nos protegia bem das incursões ofensivas do Vitória, com uma linha defensiva de cinco elementos onde Sidoine Fogning e Salvador Agra cumpriam bem o papel de laterais-alas.

No meio-campo, Ibrahima Camará e Ilija Vukotic formavam uma dupla compacta que, apesar de alguma falta de mobilidade, conseguia conter as investidas adversárias. O neerlandês Marco van Ginkel, posicionado numa zona mais adiantada, procurava ligar o jogo com os avançados, embora com dificuldades em encontrar espaços entre as linhas vimaranenses.

A resistência axadrezada tremia por momentos, mas Vaclik, num início de jogo inspirado, negava por várias vezes o golo aos vimaranenses. As nossas maiores oportunidades surgiam através de lances de bola parada, onde a altura dos nossos centrais Steven Vitória e Abascal criava perigo na área contrária.

O jogo seria interrompido aos 37 minutos num episódio lamentável, quando Bruno Varela, guardião do Vitória, alegou ter ouvido insultos racistas vindos da bancada. Um momento que enegreceu a partida e prejudicou o espetáculo, com o nosso capitão Abascal, treinador Lito e Presidente Fary a tentar acalmar os ânimos e a pedir serenidade aos adeptos. O incidente acabaria por quebrar o nosso ritmo de jogo.

Num lance mesmo a terminar a primeira parte, João Mendes derrubou Vukotic na nossa área, e João Pinheiro não hesitou em apontar para a marca dos onze metros. Marco van Ginkel, com classe, converteu a grande penalidade e colocou-nos em vantagem mesmo em cima do intervalo.

No regresso dos balneários, Lito Vidigal manteve a estrutura e apostou em tentar manter a baliza fechada. A sorte, contudo, conspirava contra nós. Logo aos 50 minutos, um cruzamento lateral de João Mendes encontrou Vukotic em posição defensiva e, na tentativa de cortar a bola, o nosso médio acabou por introduzi-la na própria baliza, sem dar hipóteses ao excelente Vaclik.

Com a igualdade no marcador, o encontro ganhou em intensidade. A equipa vimaranense cresceu e começou a aproveitar melhor os espaços que íamos concedendo no nosso meio-campo. As substituições de Lito Vidigal, com Robert Bozenik a entrar apenas nos minutos finais, foram recebidas com alguma incompreensão por parte dos adeptos, pois o avançado poderia ter ajudado a dar mais peso ao nosso ataque quando mais precisávamos de marcar.

A estocada final seria aplicada aos 76 minutos, quando Lystsov derrubou Vando Félix na nossa área. Novo castigo máximo dúbio, desta vez convertido por Tiago Silva, que consumou a reviravolta para os vimaranenses e deu-lhes uma vantagem que já não abdicariam.

Destaques individuais

Tomas Vaclik: Foi, sem dúvida, o nosso melhor elemento em campo. O guarda-redes checo esteve intransponível durante quase toda a partida, com intervenções decisivas que impediram que a derrota fosse mais pesada. Nada podia fazer nos dois golos sofridos.

Sidoine Fogning: Outro dos jogadores em destaque na nossa equipa. Adaptado a lateral esquerdo, cumpriu com excelência tanto nas tarefas defensivas como nos momentos em que se juntou ao ataque. Continua a ser uma das revelações dos reforços de Inverno.

Ambiente e reacções

No Estádio do Bessa, os nossos cerca de 16.000 adeptos (número avançado pelos comentadores televisivos) estiveram incansáveis no apoio durante os 90 minutos, mesmo quando o resultado se complicou. O episódio com Bruno Varela manchou, contudo, a imagem que queríamos passar, num momento em que todas as energias deveriam estar concentradas no apoio incondicional à equipa.

Nas redes sociais, a frustração dos adeptos axadrezados foi evidente, com críticas direcionadas principalmente às opções táticas do técnico Lito Vidigal e à demora nas substituições.

A opinião generalizada é que, perante a situação de perigo em que nos encontramos na tabela, o Boavista precisava de mais audácia para vencer este jogo caseiro, especialmente quando as equipas que lutam pela permanência também somam pontos.

Perspectivas futuras

Esta derrota complica ainda mais as nossas aspirações na luta pela permanência. Continuamos na última posição da tabela, com 15 pontos, menos dois que o Farense, primeiro clube acima da linha de água. O calendário que temos pela frente não é fácil, mas a deslocação a Moreira de Cónegos, na próxima jornada, afigura-se como (mais) uma autêntica final.

A qualidade individual que o plantel apresenta, especialmente com as recentes contratações, faz-nos acreditar que ainda é possível inverter esta situação, mas será necessária alguma mudança na abordagem aos próximos jogos, tanto a nível táctico como de mentalidade.

O Boavista precisa de, pelo menos, cinco vitórias nos nove jogos restantes para assegurar a permanência - uma missão difícil, mas não impossível para um clube que sempre fez da luta e da resiliência a sua imagem de marca. Como dizia o tifo dos PN: "Até ao fim".



Quando a Diversidade Cultural nos Define e nos Defende

Há ironias que a vida teima em apresentar-nos. Na mesma semana em que o nosso Boavista enfrenta acusações de comportamentos racistas por parte de uma pequena franja de espectadores, surge uma notícia que ilustra perfeitamente a verdadeira essência do clube: a diversidade cultural como um dos seus traços mais definidores.

Os números que falam por si

No domingo passado, o Boavista igualou um registo histórico na I Liga portuguesa que pertencia... ao próprio Boavista. O onze inicial escolhido por Lito Vidigal para defrontar o Vitória SC apresentou jogadores de 11 nacionalidades diferentes: Chéquia, Rússia, Canadá, Uruguai, Portugal, República da Guiné, Montenegro, Camarões, Países Baixos, Mali e Estados Unidos.

Este feito extraordinário, que já tínhamos alcançado a 14 de maio de 2022 na última jornada dessa edição do campeonato frente ao Tondela, é um testemunho eloquente da natureza cosmopolita e inclusiva do nosso clube.

E a diversidade não se ficou pelo relvado. No banco de suplentes estavam representados mais cinco países - Brasil, Serra Leoa, Colômbia, Eslováquia e Senegal - para além de Portugal. Um verdadeiro mosaico cultural que se estende à própria estrutura do clube: Lito Vidigal, o nosso treinador, tem dupla nacionalidade portuguesa e angolana, enquanto Fary Faye, presidente da SAD, é um muçulmano senegalês.

A contradição da acusação

Face a estes dados concretos, torna-se ainda mais difícil compreender como pode um clube com este ADN multicultural ser alvo de acusações de racismo. Um clube que, historicamente, tem sido uma porta aberta para jogadores, treinadores e dirigentes das mais diversas origens, raças e religiões.

É neste contexto que devemos analisar o recente processo instaurado pela Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) para apuramento dos alegados insultos dirigidos ao guarda-redes do Vitória SC, Bruno Varela.

O devido processo e a presunção de inocência

Acredito firmemente na importância do combate a todas as formas de discriminação no desporto. O racismo, a xenofobia e qualquer outra forma de preconceito não têm lugar no futebol, nem na sociedade em geral.

No entanto, também defendo o rigor nas investigações, o respeito pelo devido processo e a presunção de inocência. A instauração de um processo de contraordenação é apenas o início de um procedimento de apuramento de factos, não uma conclusão ou uma condenação.

É essencial que as autoridades competentes investiguem com rigor o que realmente aconteceu durante o jogo. Se houve, de facto, comportamentos racistas, estes devem ser condenados veementemente e os seus autores punidos com todo o rigor da lei.

Mas os factos devem ser estabelecidos de forma clara e inequívoca, respeitando o princípio da presunção de inocência. É demasiado fácil manchar a reputação de um clube histórico com acusações que podem revelar-se infundadas ou baseadas em incidentes isolados que não refletem os valores da instituição.

O Boavista como símbolo de integração

A história do Boavista é rica em exemplos de integração e valorização da diversidade. Desde os anos 90, com a chegada de jogadores como Jimmy, Ricky, Erwin e Chipenda, passando pelos anos 2000 com William, Timofte, Fary Faye e Jacaré, até aos dias de hoje com nomes como Lystsov, Vaclik, Fogning e Van Ginkel, o nosso clube tem sido um exemplo vivo de como as diferenças culturais podem ser uma fonte de riqueza e não de divisão.

O próprio Fary Faye é um exemplo paradigmático: chegou como jogador, tornou-se um ídolo da massa adepta e hoje lidera a SAD. Um trajeto que só é possível num ambiente onde o valor de uma pessoa é medido pelo seu caráter e capacidade, não pela sua nacionalidade, raça ou religião.

Abaixo o preconceito, viva a diversidade

No Boavista, a diversidade não é uma bandeira que se agita por conveniência - é uma realidade vivida diariamente nos nossos balneários, nos nossos escritórios e nas nossas bancadas.

Precisamente por isso, que se condena qualquer forma de preconceito ou discriminação. Se algum adepto isolado proferiu insultos racistas, esse comportamento vai contra tudo o que o Boavista representa e deve ser punido adequadamente.

Mas também apelamos a que se evitem julgamentos precipitados e condenações mediáticas antes de concluído o processo de investigação. Um clube com 11 nacionalidades em campo, um treinador luso-angolano e um presidente senegalês merece, no mínimo, o benefício da dúvida quando confrontado com acusações de racismo.

O Boavista continuará a ser um clube aberto a todos, independentemente da nacionalidade, raça ou religião. É assim que fomos no passado, é assim que somos no presente e é assim que continuaremos a ser no futuro. Porque a verdadeira essência do Boavista não está na cor da pele de quem o representa, mas no xadrez que todos orgulhosamente envergamos.

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